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domingo, 27 de novembro de 2011

Fado, o património. É pena é os outros concorrentes...

Acho que qualquer pessoa fica contente quando o seu país é distinguido, simplesmente porque é uma partilha de um momento de glória. Por momentos ganhámos, todos nós, mais qualquer coisinha. Um bocadinho ao estilo deste episódio verídico: Cristiano Ronaldo numa conferência de bota ou bola de ouro (baralho-me um pouco) quando é eleito pela 49ª vez o melhor do mundo. Jornalista pergunta: "Acha que isto vai fazer com os portugueses se sintam melhor com esta crise toda?". Huuummmm... E ele respondeu: "Sim, os que gostarem de mim". A ideia é: ele é o melhor do mundo, logo os portugueses são todos os melhores do mundo e já nem nos lembramos que existe crise. Pois, nem por isso.
Bem, antes que me perca nesta explicação, quero com tudo isto dizer que sim, ficamos todos mais contentes com esta distinção do fado, mas há aqui um twist. Já repararam bem quem são os outros vencedores? Pois... Foram considerados património imaterial da humanidade 17 coisas/cenas/tradições, e no top 7 está o fado entre outras coisas um pouco inexplicáveis. Os Mariachi, tudo bem. Agora, a dança silenciosa Nijemo Kolo e as cavalgadas dos reis da República checa ou mesmo a Cyprus Tsiattist... Bem... deixemos os vídeos falar...



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Recepção ao extraterrestre

Ontem estava tudo em polvorosa à espera que a NASA dissesse: "sim, encontramos a família do ET". Na realidade, saíram-se com uma explicação científica elaborada cuja conclusão é: "quase de certezinha que há vida ET". Bem, mas não estou para aqui a escrever sobre descobertas científicas mas sim sobre uma pérola que me mostraram outro dia. A música "Sr. Extraterrestre", letra de Carlos Paião, interpretação a cargo da sô dona Amália. A letra é deliciosa e cheia de pontos interessantes:
1º - Amália consegue comunicar com ETs e eles entendem português
2º - O ET foi apanhado pela polícia sem carta de condução
3º - O ET sabe o que são sardinhas e bacalhau (coisa que infelizmente não há lá na terra dele)
4º - O Sr. extraterrestre tem uma carteira (conceito bastante comum no mundo dos aliens pois tem de andar com notas, cartões e essas coisas). E o que é que não podia faltar na carteira? A fotografia do filho que por sinal é verdinho como o pai
5º - O OVNI tem chaves. Claro, como é óbvio. Uma nave espacial tem de ter ignição tipo carro
6º - O ET come sandes durante a viagem e abre a janela enquanto conduz. Uma coisa chata não ter oxigénio enquanto se viaja. Oxigénio? Ai, espera. Este ET respira o quê? Isso não interessa. O melhor disto tudo é que o SR. ET viaja de vidro sem ser sugado para o espaço
7º - ET que é ET, pelo menos os que dão à costa portuguesa, bebem vinho tinto

Aqui fica para apreciação, juntamente com o vídeo. É maravilhoso.


"Vou contar-vos uma história
que não me sai da memória,
foi para mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo ovni
pousado no meu quintal.

Fui logo bater à porta,
veio uma figura torta,
eu disse: se não se importa
poderia ir-se embora,
tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo para fora.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá o botãozinho
e pôde contar-me então
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

O senhor desculpe lá,
não quero passar por má,
pois você onde está
não me adianta nem me atrasa.
O pior é que a vizinha
que parece que adivinha
quando vir que estou sozinha
com um estranho em minha casa.

Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau
e eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos com certeza,
mostre lá? Ai que riqueza,
não é mesmo uma beleza,
tão verdinho? sai ao pai.

Já está de chaves na mão?
Vai voltar para o avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes para viagem
e vista também aquela
camisinha de flanela
para quando abrir a janela
não se constipar com a aragem.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer
que quer que eu vá visitá-lo,
que acha graça quando eu falo
ou ao menos para escrever.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só para dizer: Deus lhe pague.
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague."


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O que é isso do fado

Há muitas definições e teorias sobre a sua origem. A quem o encontre no Brasil, como dança dos escravos que deu à costa portuguesa quando a corte voltou da colónia, lá pro XIX, outros dizem que veio de África. Pelo meio metem-se os marinheiros. Outra teoria diz até que o fado é descendente das canções de gesta. Seja como for, o fado nasce pobre, em antros de promiscuidade, álcool e boémia, fruto de desgostos amorosos, dores de alma e de mais alguns trejeitos da alma dos portugueses. Só no século XX é que se torna canção nacional elevada a hino de um povo. No seu percurso ainda vai ser maltrada, porque Salazar gostava dela, mas se há coisa que não se pode dizer é que é não merece reconhecimento.
Há fados que têm as melhores poesias da língua portuguesa. Outros, vivem do gosto de brincar com a língua, coisa que o povo tantas vezes faz. Felizmente pertenço a uma geração que o pode aperciar sem pesos de antigo regime. Confesso que gosto. Confesso que me arrepia ouvir alguns fadistas cantarem, como o Camané, a Mafalda Arnauth ou a Mariza. Seja em casas de fado, a cantar à desgarrada ou nos Coliseus. Mas ninguém bate Amália.