quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O que é pior: estar constipado ou estar constipado no fim-de-semana e curado na segunda-feira?

Seguramente a segunda hipótese é a pior. Foi o que me aconteceu. Mas muito melhor que qualquer explicação sobre o enfado de estar constipado é o poema de Pessoa. Aqui fica:

Álvaro de Campos
Tenho uma grande constipação,


Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cenário improvável


Em plena cidade de Lisboa ver um pastor desesperado, a correr de mãos ao alto, porque o seu rebanho está a tresmalhar para a estrada é no mínimo um cenário inesperado e improvável. É certo que há um descampado por perto e que o rebanho não estava propriamente a passear na Av. de Roma. Ainda assim, ver o senhor a correr porque um raio de uma ovelhinha decidiu atravessar a passadeira é estranho. O condutor parou o carro, tentou desviar-se, e andava tão devagar que parecia mesmo surpreendido. Tinha acabado de sair de uma rotunda moderninha e estava à espera de tudo, menos daquilo. É Portugal no seu melhor. Um mix entre vanguarda e tradicionalismo, entre terceiro mundo e asfalto perfeito. Uma ode para o futuro: o pastor e sua rotunda arrelvada.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sobreviver a RPM

A sigla faz lembrar um instituto público tipo DGV. Mas na realidade é o mais próximo de uma experiência radical ou militar confinada entre as quatro paredes de um ginásio. Os níveis de adrenalina estão lá em cima e o companheirismo é o mesmo. Olhamos para o lado e a mensagem é: "Não desistas.Vamos conseguir".
Antes de mais, passo a explicar o que é isso de RPM. É uma grande invenção dos professores de ginástica, sempre na vanguarda da luta contra a celulite. Pois então, resolveram juntar o treino de um ciclista de alta competição em bicicletas presas ao chão, mas sem paisagem gira. Aqui a motivação aparece em forma de rabos esbeltos - aqueles que queremos conquistar - e os mais gordos - os que queremos combater. Ah, e não podemos esquecer a música de discoteca. Próximo parágrafo.
A motivação para entrar na sala é elevada. Começo a visualizar o extermínio final da celulite, a existência restrita a curvas necessárias e o fim da dúvida que mais aflige uma sra: "qual é o meu número de calças?" Quando a música começa, ainda me debato com a manipulação da bicicleta. Arranjar o selim e o guiador revela-se uma prova difícil. Depois de várias tentativas, enquanto o resto da turma já está mais que aquecida, a minha vizinha do lado sai disparada da sua bicicleta com cara de poucos amigos. Não me diz nem uma palavra e agarra-se ao "bicho" e põe-lo na ordem. O rosto dela transmitia a mensagem clara: "Minha grande burra. Estás a irritar-me cá de uma maneira..."
Fase 1 superada. Já estou em cima da bicicleta e a primeira coisa que faço é olhar para o relógio em cima da cabeça do professor. Penso: "Está tudo bem, já só faltam 40minutos". Quem é que eu quero enganar? O já só faltam é mais ainda faltam...
O que acontece a seguir resume-se numa frase: picos de adrenalina, com a noção que é desta que saio a meio da aula ou então que vou cair para o lado. Durante toda a aula não tiro os olhos do relógio. Sinto o coração aos pulos e aldrabo a coisa. "Ponham carga(traduzindo: mudanças mais pesadas)", grita o professor. A minha técnica é tocar ao de leve na mudança e fingir que está mais pesada. Ufa!+ Sorriso amarelo = professor convencido de que estou mesmo a esforçar-me.
Quando chego ao exercício 4 (sim, isto está dividido por números) acho impossível ficar até ao fim. Estou a transpirar em bica e a pensar: "porquê?". O melhor da aula é o final. Saio de lá com o pensamento: "sobrevivi a uma guerra e sai sem ferimentos". O banho quente é o prémio merecido.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

15 minutos de tolerância

Uma das tradições deste país é um acordo tácito desenvolvido há muitas décadas, talvez séculos. O contrato é simples: podemos chegar atrasados 10 a 15 minutos. Ninguém fala oficialmente sobre isto. Provavelmente vão jurar a pés juntos que tal acordo não existe. Mas é mentira. Marca-se um encontro, uma entrevista, e ninguém espera realmente que se chegue à hora certa. Quando isso acontece sentimos que se passa qualquer coisa no universo. Provavelmente os planetas desalinharam-se, ou algo assim. O mais curioso neste acordo é que acabamos por chegar à mesma hora. Ou seja, alinhados no mesmo atraso. Verdade? O problema é quando nos adiantamos e chegamos a horas... Nem tudo é perfeito.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os filmes devem ter um final, certo?


Andam por aí uns realizadores que acham que não terminar um filme é um grande rasgo de criatividade. Nem anunciam se é uma trilogia ou algo assim. Nada disso. Não há parte I a seguir ao título e nos jornais ninguém avisa que vai haver continuação. Só descobrimos esse detalhe quando estamos no meio da acção e... pimba. Acabou. Volte daqui a um ano. Muito engraçado, sim senhor.

P.S. - É o caso de "Salt". A Angelina sai-nos disparada de um helicóptero e pronto. Temos de esperar um ano para saber o que vai acontecer. Que coisa mais gira. :P

domingo, 22 de agosto de 2010

"Está a ficar fresquinho. É melhor vestires um casaco"

São 19horas de um dia de Agosto. Estou sentada numa cadeira à porta de casa cercada por árvores. De repente, sem nada me preparar, nem uma aragem fresca ou uma ligeira descida de temperatura, surge a voz: "Está a ficar fresquinho. É melhor vestires um casaco". Há uns anos tal comentário seria o suficiente para me fazer saltar a tampa e logo a seguir sair-me com uma tirada insensível, ao melhor estilo de adolescente revoltada sem razão. Desta vez, não.
Senti umas saudades ao ouvir aquela frase. A voz da mãe e o diminutivo "fresquinho", para não parecer demasiado exagerada (característica fundamental numa progenitora) fizeram-me sentir um saudosismo. Realmente não há ninguém como a mãe. É um ser que não descansa e o que nos vai avisar sempre de tudo. De que está frio, mesmo que o sol brilhe lá fora. De que temos fome, apesar de não sabermos. De que temos de pôr o chapéu, mesmo tendo o cabelo molhado. De que temos de dormir, porque no dia seguinte não vamos conseguir levantar-nos da cama. De que aquele amigo não é assim tão fixe.
Ainda é cedo para ser nostálgica, é certo, mas nesse momento tive uma mini epifania. Nunca voltarei à infância. Ela nunca mais me vai vestir um casaquinho. Nunca mais me vai atar os sapatos. Nunca mais me vai pegar ao colo e fazer com que me sinta altíssima (já sou mais alta do que ela). Nem nunca mais vai inventar histórias para me fazer comer e muito menos levantar-se da cama a meio da noite para trazer uma copo de água à criança mimada que grita do quarto: "Tenho sede". Passou. Mesmo assim, terei sempre aquela voz a repetir-me que está frio e que tenho de comer mais. Mesmo que seja só de vez em quando.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A melhor maneira de lidar com o final das férias é...

...prolongar as férias até ao último minuto e adiar o doloroso regresso. Resulta? De 1 a 10, digamos 7. Não está mau. Tudo o que torne o regresso suportável é bem-vindo. Utilizei uma técnica muito simples. Sair do local de férias na manhã em que se trabalha. É uma estratégia antiga. O domingo deixa de parecer um dia inútil e que aproveitamos tudo, tudo. Mas nada nos prepara para as toneladas de e-mails e para o constante: "viste?", "leste'". Nãoooo. Estive de férias e como tal desliguei-me do mundo. Num dia temos de perceber tudo o que aconteceu e vai acontecer. Apanhar o comboio e retomar tudo o que deixamos. Onde ficou a praia? O sol e a água salgada?